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Fim das bets e consumo: o que o varejo diz ver e o que os números ainda não mostram

Três semanas depois da MP que proibiu as apostas de quota fixa, o varejo começou a falar em efeito no consumo. A direção do Assaí disse a analistas que vê sinais de melhora nas compras no quarto trimestre e que as restrições às bets podem estar contribuindo. O governo conta com isso, e a oposição duvida. O que ainda não existe é um dado oficial de vendas posterior a 6 de outubro, e os números que circulam sobre o dinheiro das bets medem coisas diferentes.

O que o Assaí disse, e a quem

A fala não veio de um balanço nem de um comunicado, mas de uma reunião com analistas do BTG Pactual. Segundo o Diário do Rio, participaram o presidente do Assaí, Belmiro Gomes, o diretor financeiro, Rafael Sachete, e a gerente de relações com investidores, Gabrielle Helu. A empresa relatou sinais de melhora nas compras neste quarto trimestre, sobretudo em cidades do interior e em bairros de menor renda, e disse acreditar que as restrições às bets podem estar contribuindo.

O mesmo relatório, como resumido pelo Money Report, registra que o ambiente de consumo "segue desafiador no terceiro trimestre de 2026" e fala em "sinais iniciais de melhora para os próximos meses". Segundo o mesmo resumo, a empresa diz que a troca por produtos mais baratos já aconteceu em boa parte, que a pressão no orçamento das famílias ainda pesa mais nas categorias não essenciais e que limites mais duros às apostas podem levar mais renda para gastos básicos, como alimentação. Nenhum número de vendas foi divulgado. O que existe, por enquanto, é a leitura da administração de uma grande rede, filtrada por um banco e repassada pela imprensa.

Fontes: Diário do Rio, 14 de outubro de 2026; Money Report, 15 de outubro de 2026 (imprensa, com base em relatório do BTG Pactual).

Quanto dinheiro ia para as apostas: depende do que se mede

Os números que circulam não são comparáveis entre si, porque cada um mede uma coisa. Há o dinheiro apostado, o dinheiro perdido e as vendas que deixaram de acontecer.

Quem estimouO que medeNúmeroPeríodo
Banco CentralTransferências brutas por Pix para empresas de apostas (o que foi apostado)R$ 18 a 21 bi por mêsJaneiro a agosto de 2024
Nossa conta sobre o BCQuanto ficaria com as empresas, com a retenção de cerca de 15% estimada pelo próprio BCR$ 2,7 a 3,2 bi por mêsMesmo período
Comsefaz, via imprensaGasto das famílias com betsR$ 4,7 bi por mêsOutubro de 2024 a março de 2026
CNCVendas que o varejo teria deixado de fazerR$ 143 bi no totalJaneiro de 2023 a março de 2026

O próprio Banco Central avisa que suas cifras são estimativas preliminares e que boa parte do valor apostado volta aos apostadores como prêmio. A CNC, por sua vez, publicou o estudo em abril de 2026, antes da MP, e as suas páginas não concordam entre si: a notícia fala em gastos "superior a R$ 30 bilhões por mês", enquanto a página da publicação fala em "mais de R$ 30 bilhões anuais". A diferença é de doze vezes, e o estudo completo não detalha o modelo.

Gráfico de barras com estimativas mensais ligadas às apostas: R$ 18 a 21 bilhões apostados por Pix segundo o Banco Central, R$ 2,7 a 3,2 bilhões retidos pelas empresas pela nossa conta e R$ 4,7 bilhões de gasto das famílias segundo o Comsefaz
Três estimativas, três medidas diferentes: o que foi apostado (Banco Central, 2024), o que ficaria com as empresas (nossa conta com a retenção de 15% do BC) e o gasto das famílias (Comsefaz). Valores em R$ bilhões por mês.

O estudo do Banco Central dá outra escala para o mesmo fenômeno. Cerca de 24 milhões de pessoas fizeram ao menos um Pix para empresas de apostas no período analisado em 2024. Só em agosto daquele ano, segundo o BC, pessoas de famílias do Bolsa Família mandaram R$ 3 bilhões, com mediana de R$ 100 por pessoa. São valores de 2024, anteriores à regulamentação do mercado, e o próprio BC os chama de estimativas preliminares.

Esses números não separam a aposta esportiva do cassino online. O estudo fala em pessoas que "participaram de jogos de azar e apostas", ou seja, entram na mesma conta o palpite no futebol e os jogos de cassino, como o Fortune Tiger, o chamado jogo do tigrinho. A MP 1.394 também proibiu os dois: o que mudou para o cassino online e para o jogo do tigrinho está nos nossos guias. Qualquer efeito no consumo, se aparecer, vem da soma das duas coisas.

Fontes: Banco Central, Estudo Especial nº 119/2024; CNC, notícia de 29/04/2026 e página da publicação; O Povo, 4 de outubro de 2026, para o número do Comsefaz (imprensa). A linha "nossa conta" multiplica 18 e 21 bilhões por 15%.

Por que a devolução dos saldos não muda a conta

A devolução do dinheiro que ficou nas plataformas aparece em várias análises como um empurrão para o consumo de outubro. Os números oficiais sugerem um efeito pequeno. Em 9 de outubro, o Ministério da Justiça contava R$ 1,24 bilhão em saldos de 26,3 milhões de pessoas; no dia seguinte, o comunicado do governo indicou R$ 159 milhões ainda pendentes, distribuídos em 70,5 milhões de contas, das quais 90% tinham menos de R$ 1 a receber.

Gráfico de 100 quadrados mostrando as contas com saldo nas bets por valor a receber: 90% com menos de R$ 1, 7% entre R$ 1 e R$ 10 e 3% com R$ 10 ou mais
Contas com saldo a devolver, pelo valor: 90% tinham menos de R$ 1 e 97% menos de R$ 10, segundo o comunicado do governo de 10 de outubro de 2026. Cada quadrado representa 1% das contas.

Pela nossa conta, R$ 1,24 bilhão dividido por 26,3 milhões de pessoas dá uma média de cerca de R$ 47, mas a média engana: com nove em cada dez contas abaixo de R$ 1, o dinheiro devolvido se concentra em poucas pessoas. Se houver efeito no consumo, ele virá do dinheiro que deixa de ser apostado a cada mês, não do saldo devolvido de uma vez.

Fontes: Ministério da Justiça e Segurança Pública, 9 de outubro de 2026; Agência Brasil, 10 de outubro de 2026, com o comunicado do governo. A média é conta nossa.

Quem contesta os números

O setor de apostas rejeitou o estudo da CNC desde a publicação. O IBJR, que reúne operadoras que eram autorizadas, pediu "transparência metodológica" e acesso às bases de dados e chamou as conclusões de "alarmistas"; a ANJL disse que os números "não condizem com os dados oficiais do governo e do setor". A CNC afirmou que a análise econométrica usa dados do Banco Central, sem detalhar o modelo. O estudo diz que as apostas podem ter levado até 270 mil famílias à inadimplência severa, com atraso de 90 dias ou mais, e aponta como mais expostos os homens, as famílias com renda de até cinco salários mínimos, as pessoas com 35 anos ou mais e as de maior escolaridade. Para as famílias de renda mais alta, a entidade vê as bets funcionando como substituto de outras dívidas. "O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico", disse o presidente da CNC, José Roberto Tadros, na apresentação em abril. Nenhum dos lados apresentou, até agora, uma medida independente do efeito no comércio.

Governo e oposição leem o mesmo dado de formas opostas

O tema entrou na campanha do segundo turno, e os dois lados leem a mesma expectativa de maneiras diferentes. Nenhum deles apresentou números.

QuemO que dizEm que se apoia
Governo (Palácio do Planalto)Uma "ligeira melhora" no varejo, principalmente entre famílias de menor renda, e a expectativa de que o poder de compra aumente com menos dinheiro gasto em apostasDados que chegaram ao Planalto, não publicados
Entorno do candidato Flávio Bolsonaro"Efeito limitado sobre o eleitorado indeciso"O "quadro recorde de endividamento das famílias"

O mesmo relato registra a preocupação do Planalto com o mercado ilegal, que segue operando.

Fonte: CNN Brasil, blog de Gustavo Uribe, 15 de outubro de 2026 (imprensa).

O que ainda não dá para medir

  • Vendas depois de 6 de outubro: o bloqueio dos sites começou nessa data, e os dados oficiais do varejo de outubro só saem nos próximos meses.
  • Quanto foi para sites ilegais: se parte das apostas migrou para sites sem autorização, esse dinheiro não volta ao consumo, e não há medida pública disso.
  • O peso das dívidas: segundo a CNC, 80,4% das famílias estavam endividadas na pesquisa citada em abril; dinheiro liberado pode ir primeiro para pagar contas.
  • Pesquisas de opinião: o Sebrae ouviu 1.028 pequenos negócios no início de outubro; 33% disseram ter notado clientes com menos dinheiro e 26% ligaram uma queda de faturamento às apostas. Outros 51% não viram efeito direto e 23% não souberam dizer. É uma pesquisa de percepção, e o BNLData criticou a falta de detalhes sobre o método.
  • O que os economistas esperam: a economista Carla Beni, da FGV, disse ao O Povo esperar que o dinheiro volte para itens essenciais e para o pagamento de dívidas, e lembrou que a votação da MP no Congresso ainda é um risco para esse cenário.
Fontes: CNC, 29/04/2026; BNLData, 11 de outubro de 2026, sobre a pesquisa do Sebrae; O Povo, 4 de outubro de 2026 (imprensa).

O que está confirmado e o que ainda não se sabe

  • Confirmado: a MP 1.394/2026 proibiu as apostas de quota fixa a partir de 25 de setembro e o bloqueio dos sites começou em 6 de outubro; o Banco Central estimou em 2024 entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês em Pix para empresas de apostas.
  • Dito, mas não medido publicamente: a melhora nas compras relatada pelo Assaí; a "ligeira melhora" nos dados do Planalto.
  • Ainda não se sabe: quanto do dinheiro antes apostado volta de fato ao consumo, quanto vai para dívidas e quanto migra para sites ilegais.

O que muda para quem joga

Para quem apostava, a MP não prevê sanção, e o saldo que ficou nas plataformas autorizadas segue o caminho descrito em prazo de saque e reembolso. Se o fim das apostas liberou uma parte do orçamento, ou se as dívidas ficaram, o guia o dinheiro nas bets explica o que acontece com os valores, e a página de jogo responsável reúne atendimento gratuito pelo SUS e o CVV 188.

Fonte: MP 1.394/2026, Planalto.

Perguntas frequentes

O fim das bets aumentou as vendas no varejo?

Ainda não há dado oficial que mostre isso. A direção do Assaí disse a analistas do BTG Pactual que vê sinais de melhora nas compras no quarto trimestre, e o governo fala em ligeira melhora em dados internos, mas nenhum número foi publicado até 15 de outubro de 2026.

Quanto os brasileiros apostavam por mês?

O Banco Central estimou, para janeiro a agosto de 2024, entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês em transferências por Pix para empresas de apostas. É o valor apostado, não o perdido: o próprio BC estima que cerca de 15% ficava com as empresas.

De onde vem o número de R$ 143 bilhões?

De um estudo da CNC publicado em abril de 2026, que estima as vendas que o varejo teria deixado de fazer entre janeiro de 2023 e março de 2026. O setor de apostas contestou o método.

O dinheiro que ia para as bets vai voltar todo para o comércio?

Não necessariamente. Parte pode ir para pagar dívidas, e parte pode migrar para sites sem autorização. Nenhuma dessas parcelas tem medida pública.

A devolução dos saldos das bets ajuda o comércio?

Pouco, pelos números oficiais. Em 10 de outubro de 2026 restavam R$ 159 milhões a devolver, e 90% das contas tinham menos de R$ 1 a receber. O efeito possível no consumo vem do dinheiro que deixa de ser apostado a cada mês.

Quem mais perdeu dinheiro com as bets, segundo a CNC?

O estudo de abril de 2026 aponta homens, famílias com renda de até cinco salários mínimos, pessoas com 35 anos ou mais e pessoas de maior escolaridade como os grupos mais expostos à inadimplência ligada às apostas.

Quando vão sair os dados oficiais?

Os dados oficiais do varejo de outubro só devem sair nos próximos meses. Até lá, o que existe são relatos de empresas e expectativas do governo e de entidades do comércio.

Fontes

  1. Banco Central - Estudo Especial nº 119/2024: análise técnica sobre o mercado de apostas online
  2. CNC / Portal do Comércio - Para CNC, bets agravam endividamento das famílias (29/04/2026)
  3. CNC / Portal do Comércio - Impacto das apostas on-line no endividamento e inadimplência das famílias (29/04/2026)
  4. Diário do Rio (imprensa) - o Assaí e as restrições às apostas (14/10/2026)
  5. Money Report (imprensa) - efeito das restrições no radar do Assaí (15/10/2026)
  6. CNN Brasil (imprensa) - blog de Gustavo Uribe, consumo e segundo turno (15/10/2026)
  7. O Povo (imprensa) - alívio financeiro e consumo no último trimestre (04/10/2026)
  8. BNLData (imprensa) - a pesquisa do Sebrae mede opinião (11/10/2026)
  9. Ministério da Justiça e Segurança Pública - 16,6 mil sites encaminhados para bloqueio e saldos a devolver (09/10/2026)
  10. Agência Brasil - Bets: mais de R$ 1 bilhão foram devolvidos a apostadores (10/10/2026)
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Nota editorial

Esta reportagem é independente e não é patrocinada; nenhuma empresa pagou para aparecer nela. Os fatos foram conferidos nas fontes listadas acima em 29 de setembro de 2026 e podem mudar depois dessa data. Não é aconselhamento jurídico, fiscal ou financeiro. Para maiores de 18 anos. Se apostar deixou de ser diversão, veja a página autoexclusão e ajuda.