Futebol sem bets: 14 clubes da Série A perderam o patrocínio master
Desde a 29ª rodada do Brasileirão, nenhum clube da Série A entra em campo com marca de casa de apostas na camisa. Pela conta da imprensa, 14 dos 20 clubes tinham uma bet como patrocinador master, e a MP 1.394/2026 deu dez dias para retirar publicidade e sinais de patrocínio. Na primeira rodada depois do prazo, cinco clubes jogaram com o espaço vazio, e Flamengo e Fluminense passaram a usá-lo para a frase de uma campanha das associações do setor. Quanto o futebol perde depende de quem faz a conta: as estimativas publicadas vão de R$ 910 milhões a R$ 1,14 bilhão por ano.
O que a MP mandou tirar, e em quanto tempo
A regra está no art. 16 da medida provisória. Ele proíbe, em todo o território nacional, "as ações de comunicação, de publicidade, de propaganda, de marketing e de patrocínio relativas a loterias de aposta de quota fixa em qualquer meio de comunicação, físico ou digital". O § 1º estende a proibição a todo conteúdo que "oferte, promova, divulgue ou facilite o acesso" às apostas, seja qual for o formato ou a forma de pagamento, e o § 2º dá dez dias, a partir da publicação, para retirar o material publicitário e os "sinais de patrocínio". Como a MP saiu em 25 de setembro, o prazo terminou em 5 de outubro, pela nossa conta.
O texto não fala em clubes, uniformes, direitos de nome nem contratos de patrocínio. O art. 17 só ressalva o conteúdo publicado antes da MP em que a propaganda de apostas aparece "de forma acessória". O que acontece com os contratos assinados, se são suspensos, rescindidos ou renegociados, fica entre clubes e empresas: até 12 de outubro não encontramos orientação oficial sobre isso. O que mais a MP proíbe está em o que a MP 1.394 proíbe.
Os 14 clubes e quanto valia cada contrato
Segundo o Metrópoles, 14 dos 20 clubes da Série A de 2026 tinham uma casa de apostas como patrocinador master e precisaram procurar substitutos. Os outros seis, Bahia, Mirassol, Athletico-PR, RB Bragantino, Internacional e Coritiba, já jogavam sem bet no espaço principal da camisa. Para os valores, duas listas circulam na imprensa, e elas não coincidem. A tabela põe as duas lado a lado.
| Clube | Valor anual do contrato (CNN Brasil) | Receita de bets em 2025 (Sports Value, via O Tempo) |
|---|---|---|
| Flamengo | R$ 268,5 mi | R$ 220 mi |
| Corinthians | R$ 150 mi | R$ 150 mi |
| São Paulo | R$ 113 mi | R$ 90 mi |
| Palmeiras | R$ 100 mi | R$ 100 mi |
| Atlético-MG | R$ 62 mi | R$ 62 mi |
| Botafogo | R$ 55 mi | R$ 55 mi |
| Fluminense | R$ 52 mi | R$ 58 mi |
| Vasco | R$ 50 mi | R$ 50 mi |
| Grêmio | R$ 46 mi | R$ 43 mi |
| Cruzeiro | R$ 40 mi | R$ 50 mi |
| Santos | R$ 35 mi | R$ 35 mi |
| Vitória | R$ 20 mi | R$ 20 mi |
| Remo | R$ 12 mi | R$ 12 mi |
| Chapecoense | Não divulgado | R$ 10 mi |
| Soma (nossa conta) | R$ 1.003,5 mi (13 clubes) | R$ 955 mi (14 clubes) |
Quanto o futebol perde depende de quem conta
Os totais publicados desde 25 de setembro medem coisas diferentes, e por isso não batem:
- R$ 910 milhões: o total de bets nos clubes citado pelo O Tempo, que no mesmo texto traz uma lista cuja soma dá R$ 955 milhões, sem explicar a diferença.
- R$ 955 milhões: a soma da lista da Sports Value para 2025, pela nossa conta. Mede o que cada clube recebeu no ano passado.
- R$ 1.003,5 milhões: a soma da lista da CNN Brasil, pela nossa conta, sem a Chapecoense. Mede o valor anual dos contratos, alguns assinados ou renovados em 2026.
- R$ 1,14 bilhão: o que as bets pagaram aos clubes em 2025, equivalente a 7,9% da receita deles, segundo o InfoMoney citado pela CNN Brasil. O conjunto de clubes não é o mesmo da Série A de 2026.
- 34%: a fatia das bets nos R$ 3,2 bilhões de receitas de marketing dos maiores clubes em 2025, segundo a Sports Value citada pela CNN Brasil.
O peso também não é igual para todos. Segundo O Globo, citado pelo O Tempo, só Flamengo, Corinthians e São Paulo tinham em 2025 contratos com bets acima de 8% da receita bruta. Para a maioria dos clubes, portanto, a perda é relevante mas não decide o orçamento; para os três maiores contratos, o impacto é de outra escala. Os números são da imprensa e de consultorias, não de balanços que tenhamos conferido.
A primeira rodada sem marcas de bet
As seis partidas de quarta-feira, 7 de outubro, foram as primeiras sem nenhuma marca de aposta nas camisas. Dos 12 clubes em campo, nove tinham bet como patrocinador, segundo o Poder360. Cinco deles, Vitória, Botafogo, Vasco, Cruzeiro e Grêmio, jogaram com o espaço principal vazio. Corinthians, Remo e São Paulo usaram patrocínios pontuais de outros setores; o Corinthians recebeu R$ 1 milhão pela exposição naquela partida. No caso do São Paulo, a marca escolhida foi um aplicativo de uma empresa ligada ao antigo patrocinador, sem anúncio de apostas nem cotações, de acordo com o mesmo veículo.
O Metrópoles acrescenta que o Brasileirão e a Copa do Brasil deixaram de exibir marcas de bets nas redes sociais e não devem exibi-las durante as transmissões.
"Proibir não é proteger": o protesto na camisa
Em 8 de outubro, contra o Santos na Vila Belmiro, o Flamengo entrou em campo com a frase "Proibir não é proteger" no lugar do patrocinador master, cujo contrato, segundo o Poder360, valia cerca de R$ 268,5 milhões por ano, o maior do futebol brasileiro. No domingo, 11 de outubro, no Maracanã, Flamengo e Fluminense repetiram a frase nas duas camisas. Segundo o InfoMoney, a campanha é liderada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), as mesmas entidades que pediram ao Supremo a suspensão da MP, e a frase já tinha aparecido nas placas de publicidade de nove jogos da rodada anterior. O presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, disse que a iniciativa partiu dos patrocinadores master dos dois clubes.
Na arquibancada, torcedores do Flamengo estenderam faixas com a frase "O futebol brasileiro não pode ser vítima desse gol contra. Lula, Congresso e STF". O Flamengo também pediu para participar como interessado na ação contra a MP no Supremo, como contamos em associações pedem ao STF a suspensão da MP. Até 12 de outubro não encontramos manifestação do governo sobre a campanha.
E quem torce?
Para quem acompanha o time, a mudança é visual: a MP não fala de torcedores nem de camisas, e não prevê sanção para quem joga ou torce. A proibição do art. 16 recai sobre ações de comunicação, publicidade e patrocínio. Sobre as camisas antigas, compradas antes de 25 de setembro, não encontramos orientação oficial, e preferimos não adivinhar. Se você apostava e ainda tinha saldo, o caminho da devolução pelos bancos está em prazo de saque e reembolso. E se o fim das apostas mexeu com você de outro jeito, há apoio gratuito pelo SUS e escuta 24 horas no CVV 188, reunidos em jogo responsável.
O que está confirmado e o que ainda não se sabe
- Confirmado em fonte oficial: o texto dos arts. 16 e 17 da MP 1.394/2026 e o prazo de dez dias para retirar sinais de patrocínio.
- Confirmado pela imprensa: os 14 clubes com bet como patrocinador master; a rodada de 7 de outubro sem marcas de apostas; a frase nas camisas do Flamengo em 8 de outubro e de Flamengo e Fluminense em 11 de outubro; a campanha da ANJL e do IBJR.
- Não conferido: os valores dos contratos, que vêm da imprensa e de consultorias e não de balanços; a origem da lista da CNN Brasil.
- Ainda não se sabe: o que acontece com os contratos assinados; quantos clubes encontram patrocinadores fixos de outros setores; se o Congresso muda o art. 16 até 23 de novembro de 2026.
Perguntas frequentes
Os clubes ainda podem ter patrocínio de bet?
Não enquanto a MP 1.394/2026 estiver em vigor. O art. 16 proíbe patrocínio relativo a apostas de quota fixa em qualquer meio, e o prazo de dez dias para retirar os sinais de patrocínio terminou em 5 de outubro de 2026. O Congresso pode mudar o texto até 23 de novembro.
Quantos clubes da Série A tinham bet como patrocinador master?
Catorze dos vinte, segundo o Metrópoles. Bahia, Mirassol, Athletico-PR, RB Bragantino, Internacional e Coritiba já jogavam sem casa de apostas no espaço principal da camisa.
Quanto os clubes perdem sem as bets?
Depende da conta. As estimativas publicadas vão de R$ 910 milhões a R$ 1,14 bilhão por ano. Somando as listas por clube, chegamos a R$ 955 milhões (Sports Value, receita de 2025) e a R$ 1.003,5 milhões (CNN Brasil, valor anual dos contratos, sem a Chapecoense).
Por que Flamengo e Fluminense jogaram com a frase 'Proibir não é proteger'?
A frase é de uma campanha contra a MP liderada pela ANJL e pelo IBJR, segundo o InfoMoney, e ocupou o espaço do patrocinador master. O presidente do Fluminense disse que a ideia partiu dos patrocinadores dos dois clubes.
Posso continuar usando a camisa antiga do meu time?
A MP não fala de torcedores nem de camisas e não prevê sanção para quem joga ou torce; a proibição recai sobre publicidade e patrocínio. Até 12 de outubro de 2026 não encontramos orientação oficial específica sobre camisas compradas antes da MP.
Fontes
- Planalto - MP 1.394/2026, arts. 16 e 17 (publicidade e patrocínio)
- Metrópoles (imprensa), 07/10/2026 - os clubes da Série A sem patrocínio de bets
- Poder360 (imprensa), 08/10/2026 - a primeira rodada sem apostas nas camisas
- Poder360 (imprensa), 08/10/2026 - a frase do Flamengo contra a MP
- InfoMoney (imprensa), 11/10/2026 - o protesto no clássico do Maracanã
- CNN Brasil (imprensa), 25/09/2026 - valores anuais dos patrocínios por clube
- O Tempo (imprensa), 26/09/2026 - levantamento da Sports Value por clube
Outras notícias do Brasil

Uma juíza federal de São Paulo deixou uma empresa operar até 25 de outubro; no dia seguinte, o presidente do TRF-3 suspendeu a liminar a pedido da AGU.
Ler notícia →
O bloqueio dos sites de apostas começou em 6 de outubro e depende de cerca de 20 mil provedores de internet. A Anatel diz que não escolhe os sites da lista.
Ler notícia →
O prazo para emendar a MP que proibiu as bets foi de 1º para 13 de outubro. Já são 42 emendas e a comissão mista ainda não tem relator.
Ler notícia →Esta reportagem é independente e não é patrocinada; nenhuma empresa pagou para aparecer nela. Os fatos foram conferidos nas fontes listadas acima em 29 de setembro de 2026 e podem mudar depois dessa data. Não é aconselhamento jurídico, fiscal ou financeiro. Para maiores de 18 anos. Se apostar deixou de ser diversão, veja a página autoexclusão e ajuda.
